A infância é o chão da vida
- Gisele Reami

- 6 de fev.
- 2 min de leitura
Provavelmente, você já deve ter ouvido que a infância é o chão que a gente pisa a vida inteira. E possivelmente você já me ouviu falar isso em um vídeo lá no Instagram.
É ali que se constituem as bases da nossa experiência psíquica, muito antes de termos palavras para nomear o que sentimos. Por isso, dizer que a infância é o chão que a gente pisa a vida inteira não é uma metáfora exagerada, é um modo sensível de falar sobre a forma como o sujeito se estrutura. Antes mesmo de sabermos falar, já estamos aprendendo sobre o amor, sobre faltas, sobre o cuidado e sobre os limites.
"O infantil é imorredouro e atua em nós"
(Vera Iaconelli, no livro Análise)
Basicamente, é na infância que aprendemos a nossa forma de estar no mundo. O mundo nos chega através do outro. A nossa família, (independentemente da configuração) é o nosso primeiro repertório social, ou seja, é ali que aprendemos o que é e como nos relacionamos com os outros e com nós mesmos. Aprendemos, de maneira implícita, como é estar em relação: se o ambiente é suficientemente acolhedor, se o afeto é previsível, se o sofrimento encontra amparo ou silêncio. Essas experiências iniciais organizam nossos vínculos, nossa capacidade de confiar, de pedir ajuda, de suportar frustrações e de lidar com a ausência.
A imagem que temos de nós, ou seja, a percepção, a ideia de quem somos, também é totalmente construída com ajuda do outro: Quando as pessoas vão nos dizendo como elas nos veem, quando nossos pais nos descrevem, a reação que as pessoas tem sobre como agimos, tudo isso nos ajuda a ir entendendo quem nós somos no mundo.
É importante dizer: a infância não determina tudo e você NÃO está condenado a repetir indefinidamente aquilo que viveu.
Por isso, ao contrário do que muita gente pensa, na psicanálise, olhar para a infância não é buscar culpados nem permanecer preso ao passado (que fique bem claro!) Trata-se de reconhecer os processos que nos moldaram. É um trabalho de escuta e elaboração: dar sentido ao que, em algum momento da vida, foi apenas vivido, suportado ou silenciado.

Quando a gente pode falar sobre a nossa história, inclusive sobre aquilo que não foi dito, não foi cuidado ou não pôde ser simbolizado, abre-se a possibilidade de transformação. O passado não muda, mas a relação com ele pode mudar. E é nessa mudança que surgem novas formas de estar no mundo!
Caminhar por outros caminhos não significa apagar o chão da infância, mas reconhecer onde se pisa.



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