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A cura vem pela fala?

  • Foto do escritor: Gisele Reami
    Gisele Reami
  • 12 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura

Foto: Acervo pessoal
Foto: Acervo pessoal

Falar, por si só, não cura. Se fosse assim, bastaria desabafar com um amigo, escrever um diário ou contar nossas dores para alguém na fila do café.


Muitas vezes, pensamos em “cura” psicológica como se fosse algo tão simples quanto tratar uma gripe. Você vai ao médico, toma algo e pronto: melhora. Na análise, a fala não é uma pílula.


A fala que transforma é outra coisa. A fala que tem efeito é aquela que encontra um lugar de escuta. Uma escuta que não julga, não responde com conselhos prontos, não valida apenas para consolar. Uma escuta que devolve perguntas, silêncios, sentidos... Uma escuta que sustenta o que às vezes nem nós queremos ouvir.


A fala não cura sozinha, mas a fala que encontra um setting, que encontra uma analista, que encontra tempo, ritmo, continuidade…essa fala tem força. Ela abre brechas. Ela desmonta repetições. Ela toca o corpo. Ela desenrosca o que parecia impossível de mover.


Eu sou uma grande fã dos vínculos. Meus pacientes sabem muito bem disso, da importância que isso tem dentro dos meus atendimentos. O que mais importa (e o que mais transforma) é a experiência de se sentir percebido. De sentir que tem alguém ali de verdade, inteiro, disposto a acompanhar seu percurso interno, mesmo nos lugares onde você ainda tem medo de entrar.


A terapia é esse espaço onde você pode ser, ao mesmo tempo, responsável e vulnerável. Um pouco confuso, né? Calma lá que eu vou te explicar: responsável pela sua verdade e vulnerável diante dela. Sim, é necessário disposição de tolerar algum desconforto, porque, para que o processo funcione, é inevitável que ele exista. Não há mudança verdadeira sem encarar aquilo que preferimos evitar...


E, por isso, numa boa terapia, não empurramos, não forçamos, não entregamos respostas prontas. Em vez disso, cutucamos (com cuidado), oferecemos pequenas brechas, abrimos perguntas. As verdades mais descobertas mais importantes são sempre as que a pessoa descobre pouco a pouco, por conta própria. O que nasce de dentro tem mais força do que qualquer coisa dita de fora.


Li um livro, uma vez, que dizia algo sobre você poder assistir a todos os seminários, salvar todos os posts sobre autocuidado, ouvir todos os podcasts sobre saúde mental. Mas, no fim, é você o termômetro da sua vida! E é isso que a análise te oferece: te acompanhar nesse escutar-se.

Foto: acervo pessoal | Livro: A paciente silenciosa - Alex Michaelides
Foto: acervo pessoal | Livro: A paciente silenciosa - Alex Michaelides

A terapia, ao contrário do que às vezes se imagina, nem sempre culmina em epifanias cinematográficas. A maior parte do processo é feita de miudezas: sessões que parecem repetidas, momentos de silêncio, desconfortos que persistem, sensações difíceis de nomear.

Às vezes, parece que nada está acontecendo. Mas é ali, exatamente ali, que alguma coisa começa a se movimentar, a se deslocar.


Essa é a fala que cura: a que abre caminho para que você se escute.

"Escutar-se é desconhecer-se, despir-se do conhecido e das inúmeras versões que fazemos e refazemos de nós mesmos"

(O palhaço e o psicanalista - Christian Dunker e Cláudio Thebas)




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