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Luto & cotidiano

  • Foto do escritor: Gisele Reami
    Gisele Reami
  • 26 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura

Nem sempre nos damos conta, mas o luto não diz respeito apenas à morte física.

O luto acontece sempre que há uma perda significativa e que nos desorganiza, que muda o que até então parecia conhecido.


Toda perda merece espaço e cuidado, mesmo aquelas que o mundo insiste em minimizar...


Há lutos que quase não encontram lugar, que não são validados, reconhecidos ou nomeados. São perdas que não recebem condolências, nem flores, nem licença para doer.


São lutos de relações, de versões de nós mesmos que já não existem mais, de futuros e sonhos interrompidos, de um diagnóstico que muda tudo, de um animalzinho de estimação, de uma gestação interrompida, do trabalho, de mudanças.... lutos que não aparecem nos rituais sociais.


Quando o luto não é reconhecido, tende a ser vivido em silêncio. E o silêncio, muitas vezes, pesa ainda mais!


O luto quase sempre aparece no pequeno, no quase imperceptível, no meio do cotidiano e da rotina. Surge quando você vai contar algo para alguém, quando passa por um lugar que representa algo significativo ou quando prepara um café e os pensamentos e a saudade invadem...


O luto mora nos detalhes.

Há uma expectativa social (muitas vezes não dita, mas sempre muito cobrada), de que o luto tenha um tempo, um formato, um fim. Como se houvesse um momento exato em que a vida “volta ao normal”. Mas agora, esse é o normal. E esse normal vem junto com a falta. O cotidiano depois da perda não é um retorno ao que já existia, é uma reorganização. Nada volta a ser como antes.


A vida insiste em seguir, os dias continuam pedindo presença. O mundo não faz pausa para o luto e isso, por si só, já é profundamente doloroso.


"Embora saibamos que depois de uma perda dessas o estado agudo do luto abrandará, sabemos também, que continuaremos inconsoláveis e não encontraremos nunca um substituto (...). E, na verdade, assim deve ser. É a única maneira de perpetuar aquele amor que não desejamos abandonar".

(Freud, carta a Ludwig Binswanger,1929)


Nos atendimentos, escuto com frequência pessoas que se perguntam se estão “vivendo certo” o luto. Se estão chorando demais ou de menos. Se já deveriam estar melhores. Se algo está errado por ainda doer.


Não está. Não tem errado!


O luto não é uma linha reta, nem um processo organizado em etapas que se cumprem com disciplina. Ele vai e volta. Se esconde. Se infiltra. Às vezes parece adormecido, até ser acordado por uma música, um cheiro, uma data no calendário...


Imagem: Pinterest
Imagem: Pinterest

O cotidiano é o palco onde tudo isso se apresenta. É nele que o luto encontra espaço para existir.


Talvez uma das tarefas mais difíceis seja justamente permitir que o luto tenha lugar no dia a dia, sem exigir pressa, explicação ou desempenho. Sustentar o que dói enquanto se continua vivendo.


Aos poucos, o luto deixa de ocupar tudo, mas não desaparece. Ele encontra outros lugares dentro de nós.


E talvez seja isso que chamamos de "seguir em frente": não esquecer, não apagar, não superar, mas aprender a se reconectar com a vida de uma nova forma, de carregar o luto de um jeito possível.




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