o luto de nós

Você já percebeu como a vida vai sendo feita de pequenos lutos?
A vida não muda só nos grandes acontecimentos. Ela vai mudando também de forma quase silenciosa, quando a gente percebe que já não cabe mais em certos lugares internos.
Ao longo do tempo, vamos deixando de ser versões nossas que um dia fizeram sentido e isso não acontece de forma organizada ou clara. Muitas vezes, acontece antes mesmo de a gente conseguir nomear ou perceber... perceber um jeito de se relacionar que já não faz mais sentido, exercer um papel que antes parecia natural, mas agora pesa, vira por vezes uma forma de se colocar no mundo que começa a soar estranha.
Existe algo de despedida nisso, nessas despedidas internas. Não há um ritual, não há um marco, não há alguém dizendo “acabou”, só um certo vazio, por vezes sensação de desconfoto, falta, um desencaixe que vai ficando mais evidente em algumas situações. Tem dias que dá até uma certa saudade de uma versão anterior da vida.
Não deixamos pra lá só coisas que são "negativas" e também não necessariamente aquela versão era melhor, mas ela era conhecida. E o conhecido, mesmo quando já não serve mais, ainda oferece alguma segurança.
Mudamos de posição nas relações, mudamos nossa forma de amar, de trabalhar, de desejar, de cuidar, de nos colocar no mundo. E cada uma dessas mudanças implica, de alguma forma, abrir mão de algo. Fiquei pensando que talvez seja por isso que, em muitos momentos, a vida adulta tenha essa sensação de revisão constante. Como se estivéssemos sempre nos perguntando, de tempos em tempos, quem somos agora e o que eu faço com isso...
Mas talvez haja algo importante nesse processo: reconhecer que essas despedidas não são falhas de percurso, e sim parte do movimento de se constituir como sujeito ao longo da vida. Não existe uma versão final de quem somos.
Existe um constante tornar-se.
" e eu? como recolheria meus cacos se eles são invisíveis?"
Pequena Coreografia do Adeus - Aline Bei




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